23.6.05

Os Dois Relógios

"Um homem com um relógio pode dizer as horas; um homem com dois já não tem certeza"
(Gabriela Mezzacappa)
Neste espaço falo de idéias que me ocorrem e que me fazem refletir sobre viver, sobre ser humano, sobre amar, trabalhar, sobre inserir-se culturalmente, sobre sentir dificuldade em fazer cada uma dessas coisas, ou todas elas... Mas nem sempre essas idéias quando ocorrem o fazem dentro da minha cabeça. Elas ocorrem por aí, nas conversas, nas aulas, nos blogs dos amigos... E essa idéia que me ocorreu na aula da Cristina (é, de novo. Um caos aquela aula, aquela mulher, mas sempre põe a gente pra pensar) encontrou uma ressonância nesta frase do Bolo de Cenoura.
O que discutíamos na aula era o dever moral e ético do psicólogo de ajudar o paciente a recuperar a sua capacidade de trabalhar, e de amar, sem julgar as suas opções de vida. O dever que temos de conseguir atender alguém cujas convicções se choquem com as nossas; mesmo que ele/a seja bandido, drogado, prostituído, de outra religião, ou ateu, homossexual, prepotente, ou só chato, e de conseguir ajudar esta pessoa a ser feliz com as suas próprias convicções. Parece tão difícil a princípio. Parece que seremos obrigados a abrir mão de tudo o que é certo e nos curvar às maluquices e incongruências deste mundo.
Mas me ocorreu que fica bem mais fácil se a gente lembrar que esses conceitos do que é certo ou errado são convenções tão arbitrárias quanto o fato de que agora são 4:04, como poderia ser 5:13 ou 1:55, ou outro número qualquer. E que da mesma forma que nada garante que um relógio possa estar mais certo que o outro, nada comprova que uma maneira de viver seja mais certa que outra.
Manifesto-me aqui então em prol dessa idéia: andemos todos sempre com dois relógios. É para sempre lembrar do quanto certas verdades podem ser relativas...





Posted by Hello

6 comments:

Omi said...

tudo tão relativo como a chama tremula ao vento... mas se realemtne nao houvesse nenhuma certeza.. ficariamso perdidos.. e por que não ficamos? poruqe existe uma certeza, aquela que faz tudo tão pequeno e coisas pequenas tão imensas... o sentimento amor, a vontade de ser feliz... e para chegar a isso cada um segue seu caminho, sua forma.. e isso já não importa... o que importa é todos apesar de formas diferentes procuramos o memso ponto de luz no céu escuro.. queremos amar e ser amados, ser felizes... e só isso é preciso lembrar... como vai lembrar.. é apenas çuma forma também.. amarre fitas no dedo, use dois relógios, faça seu ritual, nao faça nada... mas lembre-se da essência de tudo, do pó, das estrelas, dos homens... apenas sinta... é simples.. e tente e seja feliz... e espalhe.. e tudo se resolve...

qualquer calmaria said...
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qualquer calmaria said...

Seu post me lembrou Cortázar. Ele escreveu um continho sobre o relógio que eu achei interessante. Não me lembro de muito, teria que pegar o livro, mas ele diz que "o relógio é um pequeno inferno enfeitado, um calabouço de ar, um pedaço frágil e precário de nós mesmos".
Um certo, um errado, nunca gostei de classificar atitudes desse jeito. Não entendo porque as pessoas insistem nesses dois jeitos.
A sua idéia de andarmos com dois relógios vai me seguir para ser usada na próxima vez em que vierem com essas "classificações".
Eu quero mais é viver.
Para que buscar mais nomes, mais ciclos quando há estrelas? De algum modo é preciso começar a segui-las, a crescer.
Adorei teu post.
Beijo.

D. Afonso XX, o Chato said...

Oi Tati. De volta da viagem, gracias pela visitinha lá na festa de aniversário do Chato. Quanto ao post, Einstein já dizia que tudo depende do observador. Há um princípio na Mecânica Quântica que diz que os experimentos dependem e sofrem interferências do observador, isto é, a realidade sempre depende de quem a vê, o mesmo valendo com relação às "verdades". Por isso tudo é relativo e dois relógios jamais marcarão a mesma hora. Se as pessoas cuidassem desse conceitos em nosso dia-a-dia, a vida em sociedade seria bem mais fácil. bjs

Kiko said...

Acho que muito de todas as nossas angústias, incertezas e demais frustações nesta vida vem de uma visão impregnada na sociedade, atualmente, de que tudo é relativo. Longe de ser totalitário e impor minha vontade para os outros, mas ignorar o conceito de verdade, ou de que agora é exatamente 4h15, pode ser muito perigoso. Acho errado partir deste ponto para um tratamento psicológico. Claro, que isso vai acontecer em determinados casos, mas devemos também aceitar (e a palavra é bem essa: aceitar) de que muito do sofrimento do paciente pode vir de que suas convicções são erradas, e de que ele sofre por isso. O bom psicólogo vai saber julgar isso, e mostrar a verdade ao paciente. Mesmo que ele seja uma pessoa totalmente diferente dele.

Kiko said...

Juro, longe de julgar, hehehe.. mas essa frase "tudo é relativo" me dá nos nervos.