21.10.06
25.8.06
Desaforismos
Segundo que eu não sou astróloga pra ficar lendo nas "estrelinhas".
Terceiro que Sartre é quem tinha razão - "o inferno são os outros".
11.8.06
8.8.06
Todo mundo vendo tudo vermelho – ou – O estranho caso do psicólogo pensante
Na aula de comunicação e expressão hoje (sim, estou tendo que passar por isso) a polêmica correu solta por causa de um texto da Clarice Lispector que tínhamos de interpretar. O texto, sobre um gordinho e feliz coelhinho branco que um dia cismou de fugir, se arrependeu, voltou para a sua casinhola e viveu feliz e gordinho para sempre gerou um monte de interpretações à la “Marx-não-morreu” sobre lutas pela libertação dos oprimidos, conformação com o que nos é oferecido pelos opressores, e mais um tanto de ideologias que já nos foram repetidas à exaustão. Tentei chamar o povo à razão, afinal, por favor, gente, coelho não é classe trabalhadora, não é roubado na mais-valia produzida, o coelho nem estava revoltado, e pra falar a verdade, nem sequer teve a idéia de fugir! O tal coelho, que estava mais pra explorador do que explorado - já que outros trabalhavam para o manter limpo, branquinho e alimentado – veja bem, o tal do coelho um belo dum dia cheirou uma idéia que nem era dele e resolveu fugir da casinhola... meia volta na calçada, e percebeu que se quisesse continuar a manter a rechonchuda silhueta daqui pra frente ia ter que ganhar a cenoura com o suor dos seus bigodes. E de volta à sua antiga vidinha, viveu feliz, feliz...
Não é que eu não entenda que a metáfora é possível, sim. Mas me preocupa essa “lavagem cerebral” que a gente sofre quando estuda ciências sociais que nos faz ver revolta popular em qualquer situação em que alguém se cansou da rotina e foi dar uma voltinha. E da mesma forma, essa visão de que no fundo, no fundo, todo mundo tem láááá no fundinho um desejo de se libertar de alguma coisa que ninguém nem sabe o que é, mas que é imposta sobre ele por um outro ser humano que está numa posição diferente. Muito me aborrece essa ficção de que a luta contra o seu diferente é boa, é necessária, já está plantada em cada um de nós que nasce. Perigoso esse negócio de sair cheirando qualquer idéia.
Só não quero ser mal compreendida: não, não sou Alckmista, como me “acusaram” (Alckimista no sentido de quem vota no Alckmin, não alquimista no sentido do livro do Paulo Coelho, ainda que o texto fale muito de Paulo, e muito de coelho), e muito menos conformista, muito pelo contrário. Eu também acho que esse mundo ainda está por consertar e que há muito trabalho pela frente. Mas estou cansada desta visão sociológica que só enxerga as diferenças entre os grupos de pessoas; cansada de tanta antropologia procurando divergências sutis entre as culturas (pensem no Líbano e em Israel e digam se eu não tenho alguma razão!). Acho que o século XXI tem que ser o século da psicologia social: vamos finalmente sair à procura daquilo que nos une, daquilo tudo o que temos em comum, das nossas similaridades, daquilo que faz de todos nós, todos os 6 bilhões, seres humanos.
Sim, há uma guerra a ser travada em busca de transformar esse mundo. Mas nessa guerra eu não vou com o exército. Quero ser da cruz vermelha.
E para quem ainda não conhece...
O MISTÉRIO DO COELHO PENSANTE
Pois olhe, Paulo, você não pode imaginar o que aconteceu com aquele coelho.
Se você pensa que ele falava, está enganado. Nunca disse uma só palavra na vida. Se pensa que era diferente dos outros coelhos, está enganado. Para dizer a verdade, não passava de um coelho. O máximo que se pode dizer é que se tratava de um coelho muito branco.
Por isso tudo é que ninguém nunca imaginou que ele pudesse ter algumas idéias. Veja bem: eu nem disse “muitas idéias”, só disse “algumas”. Pois olhe, nem de algumas achavam ele capaz.
A coisa especial que acontecia com aquele coelho era também especial com todos os coelhos do mundo. É que ele pensava essas algumas idéias com o nariz dele. O jeito de pensar as idéias dele era mexendo bem depressa o nariz. Tanto franzia e desfranzia o nariz que o nariz vivia cor-de-rosa. Quem olhasse podia achar que pensava sem parar. Não é verdade. Só o nariz dele é que era rápido, a cabeça não. E para conseguir cheirar uma só idéia, precisava franzir quinze mil vezes o nariz.
Pois bem. Um dia o nariz de Joãozinho – era assim que se chamava esse coelho – um dia o nariz de Joãozinho conseguiu farejar uma coisa tão maravilhosa que ele ficou bobo. De pura alegria, seu coração bateu tão depressa como se ele tivesse engolido muitas borboletas. Joãozinho disse para ele mesmo:
- Puxa, eu não passo de um coelho branco, mas acabo de cheirar uma idéia tão boa que até parece idéia de menino!
E ficou encantado. A idéia que tinha cheirado era tão boa quanto o cheiro de uma cenoura fresca.
Joãozinho começou então a trabalhar nessa idéia. E para isso precisou mexer tanto o nariz que dessa vez o nariz ficou quase vermelho. Coelho tem muita dificuldade de pensar, porque ninguém acredita que ele pense. E ninguém espera que ele pense. Tanto que a natureza do coelho até já se habituou a não pensar. E hoje em dia eles todos estão conformados e felizes. A natureza deles é muito satisfeita: contanto que sejam amados, eles não se incomodam em ser burrinhos.
Como eu ia contando, Joãozinho começou a trabalhar na idéia. A idéia era a seguinte: fugir da casinhola todas as vezes que não houvesse comida na casinhola.
Mas o problema era o seguinte: como é que ia poder sair de lá de dentro?
A casinhola tinha grades muito estreitas, e Joãozinho, além de branco, era gordo. É claro que não podia passar pelas grades. O único modo de se abrir a casinhola era levantando o tampo. E o tampo, Paulo, era de ferro pesado, só gente é que sabia levantar.
Durante dois dias Joãozinho franziu e desfranziu o nariz milhares de vezes para ver se cheirava a solução. E a idéia finalmente veio. Dessa vez, Paulo, foi uma idéia tão boa que nem mesmo criança, quem tem idéias ótimas, pode adivinhar.
A idéia foi a seguinte: ele descobriu como sair da casinhola. E, se bem pensou, melhor fez. De repente os donos do coelho viram o coelho na calçada, gritaram, correndo atrás dele, chamaram as outras crianças da rua – e todas juntas cercaram Joãozinho e finalmente conseguiram prendê-lo de novo.
Você na certa está esperando que eu agora diga qual foi o jeito que ele arranjou para sair de lá.
Mas aí é que está o mistério: não sei!
E as crianças também não sabiam. Porque, como eu lhe disse, o tampo era de ferro pesado. Pelas grades? Nunca! Lembre-se de que Joãozinho era um gordo e as grades eram apertadas.
Enquanto isso, as crianças, que não têm natureza boba, foram notando que o coelho branco só fugia quando não havia comida na casinhola. De modo que nunca mais se esqueceram de encher o prato dele.
E a vida, para aquele coelho branco, passou a ser muito boa. Comida era o que não lhe faltava.
(Clarisse Lispector)
28.7.06
4.7.06
E como é que se escreve sobre aquilo que ainda não sabemos o que é, que nos faz sentir medo e prazer, que parece trazer em si certezas atemporais e dúvidas aterradoras? Que dá frio na barriga e calor no coração? Que toca sentimentos totalmente novos, e outros totalmente primitivos? Que é ao mesmo tempo nobre e bárbaro?
Que a poesia fale por mim...
Through the dark - KT Tunstall
As I walk away
I look over my shoulder
To see what I'm leaving behind
Pieces of puzzles
And wishes on eyelashes fail
Oh, how do I show
All the love inside my heart?
For this is all new
And I'm feeling my way through the dark
I used to talk
With honest conviction
Of how I predicted my world
I'm gonna leave it to stargazers
Tell me what your telescope says
Oh, what is in store for me now?
It's coming apart
I know that its true
Cos I'm feeling my way through the dark
Trying to find a light on somewhere
Trying to find a light on somewhere
I'm finding I'm falling
in love with the dark over here
Oh, what do I know, I don't care
Where I start
For my troubles are few
As I'm feeling my way through the dark
Through the dark
I'm feeling my way through the dark
14.6.06
11.6.06
5.6.06
Sampa
em uma rua qualquer de São Paulo
no dia em que eu corria a São Silvestre.
O despertador tocou na hora errada
(justo quando, no sonho, a gente estava abraçado)
e eu acordei sentindo a sua falta,
e querendo que tudo aquilo fosse verdade:
numa rua qualquer, no meio do dia.
Que essa cidade maluca, essa vida
fosse menos agreste.
Que você me abraçasse
e eu pudesse parar de correr, de correr...
23.5.06
Espontânea
Brotam como uma rosa que desabrocha em pleno ar,
sem caule, sem raiz,
ou qualquer ligação com o chão.
Trazem consigo esta beleza
meio mágica,
meio súbita,
e um pouco sobrenatural...
10.5.06
8.5.06
28.4.06
15.4.06
MAUMOR
NUNTENCABIMENTU
QUIBARBARIDADI
QUIFALTADIRRESPEITU
QUIBAITABISSURDU
QUIEGOISMU
INDIVIDUALISMU
BURRISSIMEMU
QUIPUTAFOLGA
HAJASSANTAPASSIENSA...
AH! QUIPASSIENSAQUINADAVAIPRUINFERNU!!!
INUMIAMOLA.
28.3.06
24.3.06
6.3.06
Questions in my heart
Eu queria perguntar: "Será que voce se esqueceu de tudo o que tínhamos em comum?" Mas disse apenas: "E aí, gostou dos filmes?"
Eu queria saber se ele já tinha pensado em como seria se nós estivessemos juntos, mas só disse que estava com sono.
Eu me perguntava como e' que ele tinha sido capaz de transformar uma amizade de profunda em superficial, mas falei de trabalho somente.
Eu queria dizer: "Foi voce quem se mudou, agora sou eu quem tem que telefonar?", mas disse apenas "Te vejo no sábado"
Eu queria pedir: "Por favor, não me esqueça". Mas só consegui dizer: "Vamos ver no que vai dar".
18.2.06
Tem dias...
Aroma do jasmineiro no ar.
E o teu cheiro,
Onde?
(Cristina Figueiredo)
17.2.06
O Gato
Lesto e seguro
O gato passa
Do chão ao muro
Logo mudando
De opinião
Passa de novo
Do muro ao chão
E pega corre
Bem de mansinho
Atrás de um pobre
De um passarinho
Súbito, pára
Como assombrado
Depois dispara
Pula de lado
E quando tudo
Se lhe fatiga
Toma seu banho
Passando a língua
Pela barriga.
(um poeminha de Vinícius de Moraes, da Arca de Noé, vindo direto da minha infância para comemorar um fato feliz: o Michel, meu gato virtual, ganhou uma "irmãzinha" real: Dora, uma gatinha que eu adotei!!!)
31.1.06
Em defesa da amizade entre homens e mulheres
Esses dias eu estava lendo a reportagem da Veja sobre “traição virtual” e algumas passagens do texto me deixaram ASSUSTADA.
Os tais especialistas consultados inventaram uma coisa que eles estão chamando de “traição branca”, ou seja, sem sexo. Eles qualificam relacionamentos virtuais de um dos cônjuges com pessoas de outro sexo como a tal da “traição branca” quando se trata de conversas que denotam um certo grau de intimidade, de familiaridade, conversas nas quais ocorrem confissões e outras demonstrações de proximidade emocional. E dizem que essa tal de traição branca é efetivamente capaz de abalar um relacionamento.
Isso me espantou de verdade. Pra começar, se é que esses tais especialistas (psicólogos e similares... o que me espera quando eu me formar??) sabem mesmo do que é que eles estão falando, podemos assumir que eles refletem em seu discurso uma visão que é amplamente difundida na sociedade. Algo como “É consenso no consultório que...”. O que seria, na verdade, a única justificativa para que se ouça o que eles têm a dizer em uma revista de circulação nacional. Então, pelo menos por hora, vamos assumir que este seja um ponto de vista generalizado...
Bem, ou muito me engano, ou esse tipo de relacionamento que ocorre com intimidade, familiaridade, confissões e outras demonstrações de proximidade emocional sem envolvimento sexual antigamente tinha um outro nome, que era AMIZADE. E se vamos partir agora pra um nível de possessividade num relacionamento que é tão grande ao ponto de se cogitar que um casamento possa ser abalado por uma simples amizade, acredito que a nossa visão sobre este tipo de vínculo precisa ser reavaliada urgentemente.
O artigo não faz essa distinção, mas subentende-se que os tais especialistas diferenciam a antiga amizade dessa nova “traição branca” com base em um conceito: o fato de que a amizade se dá entre pessoas do mesmo sexo, e a tal “T.B.” (pra encurtar a bobagem) entre indivíduos de sexos diferentes. E se for isso mesmo, fico ainda mais preocupada, pois isso seria um sinal de que estaríamos nos rendendo de volta a uma visão muito antiquada e machista de que a boa e velha amizade simplesmente é algo que não existe entre homem e mulher.
De duas, uma ( e parece que pelo menos desta vez serei capaz de chegar a alguma conclusão):
1) ou é preciso rever com muito cuidado os nossos pontos de vista sobre até onde vai a nossa liberdade pessoal dentro de um relacionamento como um casamento, já que há muito se sabe que essa coisa de 2 que se casam e viram 1 nunca deu nem dará certo;
2) ou então tem “especialista” por aí querendo ganhar dinheiro em cima de criar um problema novo sobre algo que não só nos é familiar, como também nunca foi nem deveria ser um problema.
Se você é assinante, clique aqui: VEJA ON-LINE
Se você está no orkut, clique aqui: AMIZADE HOMEM X MULHER EXISTE!!!
Se você acompanha regularmente este blog e está desapontado porque eu havia dito que não fazia “post raciocínio”, só “post sentimento”... pois é, em 2006 até agora estou sentindo com a cabeça! heheheheheheeh
13.1.06
Raciocina comigo...
Eu nasci em 1977, ano em que o divórcio foi institucionalizado no Brasil. Pois é: eu e o fracasso oficializado do casamento temos algo em comum. Cresci na década de 80 junto com os primeiros filhos de pais separados, acreditando, conforme a crença existente naquela época em uma pequena cidade do interior, que aquelas crianças filhas de pais divorciados nunca seriam capazes de se envolver em um relacionamento estável por falta de um modelo apropriado em suas infâncias. Pobrezinhos, filhos do divórcio... “Minha filha, cuidado quando for arrumar namorado! Veja se o menino não vem de um lar desfeito!” A gente acreditava que esses nunca iam saber ser “bons maridos”...
Mas eis que as décadas foram passando, e depois daquela safra de casamentos ‘de feto’ mas não ‘de fato’ que a gente presencia no início da adolescência, a uma certa altura do campeonato, as pessoas começam a casar de “caso pensado”. Para a minha surpresa, fui percebendo que, via de regra, os filhos de pais divorciados se atiram em direção ao casamento muito mais rápido e com muito mais entusiasmo do que nós, filhos de casamentos duradouros. Eles vão com determinação e ímpeto, dispostos a construir uma relação sobre bases novas e sem repetir os erros que determinaram o fracasso dos casamentos de seus pais. Me parece que os divórcios em suas histórias lhes deram um senso de “controle” dos problemas relacionados ao casamento, e uma idéia de que, se tudo for mal, ainda há o que se fazer afinal.
Em contrapartida, os filhos de relacionamentos duradouros me parecem responder a uma visão de que o casamento é uma prisão de onde não se escapa, uma cela dentro da qual as suas individualidades sofrerão inexoravelmente as maiores e mais cruéis formas de tortura – uma armadilha a se evitar a todo custo. Há momentos em que eu também me sinto assim, ao observar certas características de antigos casamentos, e mesmo do casamento dos meus pais. Descubro, perplexa, aos 28 anos, que na verdade sou eu a pobre criança sem um modelo decente a seguir.
Não obstante, de poucos anos para cá, um outro modelo de casamento me apareceu: aquele dos meus amigos recém-casados, filhos de divorciados. Já me peguei mais de uma vez perguntando a alguma amiga com poucos anos de casada: “Mas e aí? Vale mesmo a pena esse negócio?” Ao que recebo toda vez mais ou menos a mesma resposta: “É legal, mas se for pra ser feito direito, dá trabalho”.
De qualquer modo, das respostas delas extraio uma lista mais ou menos clara das características que devo procurar num rapaz se um dia qualquer desses eu decidir que vou mesmo entrar nessa de casar. E então, outra surpresa: as características que fazem um bom marido são diferentes daquelas que fazem um bom namorado, de maneira que me senti traída mais uma vez. Sempre acreditei que namorar era uma espécie de “test-drive” de casar, e com isso hoje eu vejo que pelo menos um dos namoros que terminei até tinha grandes chances de dar num bom casamento.
As características que fazem um bom marido (e uma boa esposa, da mesma forma), segundo este novo modelo, estão na verdade bem mais próximas daquelas que fazem um bom amigo. Neste ponto, me pergunto: “qual a vantagem de se ter 1 marido, quando se pode ter uns 4 ou 5 bons amigos (isso sem falar nas amigas)?" Mas uns meses depois me ocorreu que uma resposta possível é a de que, mais cedo ou mais tarde, os seus amigos também se casam, e daí eles começam a se envolver em uns assuntos dos quais fica difícil participar a menos que você convença a todos eles de que você seria a madrinha ideal pros filhos deles. Algo me diz, no entanto, que não é a mesma coisa...
Então tá. Ao fim e ao cabo, cheguei num ponto do raciocínio em que a lógica toda de se casar está em se poder ter filhos, formar uma família. Derivo pra 3 perguntas:
1) Será possível que eu vou ter que voltar a ser católica e dar o braço a torcer para aquele padre ortodoxo que falou uma vez que o propósito único do casamento é a procriação??
2) E se o propósito 1º. do casamento é de se formar uma família e ter filhos, será que o propósito 2º. é o de se passar por um divórcio doloroso com o testemunho das crianças, para que elas também possam se desenvolver em adultos casadoiros?
3) E se eu não quiser ter filhos?
É um beco sem saída. Eu devo ter perdido alguma passagem ali pra trás, esqueci de inverter algum sinal quando passei um termo de um lado a outro da equação, porque de alguma maneira eu terminei com uma conclusão que diz:
3 = 0
28.12.05
27.12.05
Férias

É, teria sido melhor se eu tivesse realmente ido para Bora-Bora. Infelizmente, fiquei aqui. Uma situação engraçada neste fim de ano: muita coisa para pensar e no entanto, pouca vontade de escrever. Talvez de tudo isso emerja uma nova e importante conclusão, alguma maneira inovadora de lidar com as coisas. E é pra isso que 2006 está aí.
Enfim. Enquanto eu não volto, fiquem com todos os meus agradecimentos dos presentes recebidos em 2005: o relacionamento renovado com a minha família, todos os novos e também os velhos amigos, algumas reaproximações que foram mais do que importantes para mim, e - oras bolas - algumas vezes também um afastamento que é sinal de alguma maturidade. Tudo o que eu aprendi, tudo o que vivi, e as risadas que dei (e em 2005 não foram poucas!). E para completar, o meu pedido para 2006, que é na verdade a minha oração de todos os dias:
"Para 2006 peço sabedoria e força, para aceitar e enfrentar aquilo que estiver reservado para mim: que venham as alegrias que houver, as tristezas que eu tiver de ter, a companhia que me couber; e que eu aprenda o que eu puder."
20.12.05
Prefácio e Poema
“Porque tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?
E porque um simples retrato
mais que você, me comove,
se você mesmo está presente?”
Cassiano Ricardo
“Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E tenho de fechar meus olhos para ver-te!”
Mário Quintana
É meu amigo,
e se queixa
de não estar sendo visto com clareza,
de se sentir pressionado
a responder a irreais expectativas
sobre ele pousadas.
É meu amigo, e se queixa
de que nós, as meninas,
não vemos senão ilusão.
É meu amigo, e percebo
que a elas também não vê claramente
a não ser quando elas se vão.
É, meu amigo...
A mim, igualmente, vês mais nítida
aquela que fui
do que esta que sou.
Mas meu olhar, agora cubista,
o dos múltiplos espelhos,
quer te ver por todos os lados:
os lados novos, e os velhos.
E aprendi, meu amigo,
a te amar em tua humanidade
exercida, por vezes,
à imagem e semelhança de Deus;
e outras tantas
a partir da prerrogativa do erro.
E é, meu amigo,
exatamente assim que te vejo.
19.12.05
Ainda Retrospectiva 2005
Oscar Niemeyer
5.12.05
RETROSPECTIVA MUSICAL 2005
Antes de iniciar este post, quero esclarecer um ponto de extrema importância: eu não faço resenha. Ainda que o Jorge[1] possa discordar, o fato é que eu deixo os posts recheados de pensamentos e opiniões e revisões críticas para outros tantos blogs por aí, porque este aqui não é um blog de raciocínio. Este é um blog de sentimento. Eu venho aqui para me emocionar com as minhas dores e alegrias, e espero que os meus eventuais leitores também me visitem para sentir comigo. Inclusive, tomo a liberdade de “consertar” Shakespeare na frase tema deste blog:
“Vem, sinta aqui ao meu lado, e deixa o mundo girar.”
Isto posto, vamos ao post.
A trilha sonora do meu 2005 foi o 2º. CD do Sun Walk & Dog Brothers, “To Change the Things”, pirateado por mim no final do ano passado em um episódio que inclusive foi o tema de um post muito do mal-educado (tenho a dizer em minha defesa que o CD era “incomprável” na época pois estava esgotado. Depois de furar a minha cópia de tanto ouvir, e quando o relançaram, comprei um de verdade e pude finalmente tê-lo autografado. Já quanto ao post mal-criado... bem, falta de educação não se justifica, mas se explica).
O CD em questão foi ouvido à exaustão porque ele “conversava” comigo. Minhas 2 músicas favoritas foram o fundo musical das minhas grandes conquistas (faixa 7: To Change the Things) e dos meus grandes fracassos (faixa 4: Incomprehension – que eu carinhosamente chamo de “música para suicídio”).
Conto isso motivada pelo fato de que, conforme anunciado em garrafais letras azuis aqui no blog, no final de semana que passou eles fizeram um show aqui em São Carlos, e um pré-lançamento do novo CD, “Blues to Feel Good”. Ouvindo “Happiness” e “A New World is Coming”, me veio a vontade, para variar, de dar uma olhada no que anda dando certo em minha vida. E a primeira coisa que me veio à cabeça – entrando certamente por meus ouvidos – foi a descoberta, neste ano, dessa paixão pelo blues. Descobri em 2005 que este é um estilo musical que é sempre capaz de melhorar o meu humor (mesmo quando às vezes o gaitista pisa na bola! *risos*), ainda que muita gente considere o blues um estilo meio simplório, e ainda mais que às vezes eu mesma concorde com isso. Mas estive pensando e acho que é justamente dessa simplicidade que eu gosto. Combina comigo, com as coisas que eu faço, combina com a minha poesia. E é como eu acho que a felicidade tem que ser: simples.
Fazendo aqui a minha retrospectiva 2005, e os meus votos para 2006, espero conseguir fazer com que o 3º. CD seja a trilha sonora do ano que vem. E que 2006 (ano em que escaparei dos “inta” pela última vez) seja um ano de simplicidade. O ano da “simples-idade”. Assim seja. E muito blues para vcs!
[1] Professor de Ciências Sociais para Psicologia. Resenhei um texto do Mauss como trabalho final para a disciplina dele este semestre...
2.12.05
Enquanto eu tento acabar com esse fim de semestre,
e sobreviver à prova de neurofisiologia etc etc etc,
fiquem com uma musiquinha que me tem feito companhia:
So Unsexy
Alanis Morissete
Oh these little rejections how they add up quickly
One small sideways look and I feel so ungood
Somewhere along the way I think I gave you the power to make
Me feel the way I thought only my father could
Oh these little rejections how they seem so real to me
One forgotten birthday I'm all but cooked
How these little abandonments seem to sting so easily
I'm 13 again am I 13 for good?
I can feel so unsexy for someone so beautiful
So unloved for someone so fine
I can feel so boring for someone so interesting
So ignorant for someone of sound mind
Oh these little protections how they fail to serve me
One forgotten phone call and I'm deflated
Oh these little defenses how they fail to comfort me
Your hand pulling away and I'm devastated
When will you stop leaving baby?
When will I stop deserting baby?
When will I start staying with myself?
Oh these little projections how they keep springing from me
I jump my ship as I take it personally
Oh these little rejections how they disappear quickly
The moment I decide not to abandon me
27.11.05
Acasomancia
à explosão para o alto
de tudo o que eu pensava saber.
Perplexa, vejo à minha volta chover
idéias e medos.
Sonhos, projetos e apegos
caem desordenados pelo chão.
Minhas certezas, não sei onde estão.
Em desalento procuro ao redor:
aqui, memórias; ali, um carinho maior...
São partes de mim espalhadas,
milhares de mim, variadas,
um espelho em cacos,
trechos, pedaços, nacos,
versos aleatoriamente jogados.
Tudo aquilo que antes fôra
meticulosamente arrumado
jazia agora no piso.
E eu, entre o choro e o riso,
notei que talvez houvesse, afinal
um tanto de ordem no caos,
algum sistema escondido,
uma forma qualquer de sentido,
à espera de ser descoberto.
Foi assim, de tanto mirar o errado,
que acabei enxergando o que é certo.
(Pra pensar:
Bom ou Mau?
Quando se está só
em meio à escuridão
qualquer vagalume é uma luz.)
24.11.05
21.11.05
Dois Poemas de Adeus
me ensine agora a ser sozinha,
pois eu não quero mais viver nesta orfandade
que é ser sem você.
Você, que é pai de toda a poesia que há em mim,
me ensine agora a perambular sem destino
por estas ruas de nomes sem sentido
deste lugar onde você não está.
A cada vez que você se vai
morre em mim algo de mágico,
e a tua existência é só partida,
nossa vida é só de adeus...
* * *
Sem teu manto
sou tão
sem sentido...
Sinto muito;
muito
sentimento.
Sem ti, minto:
eu consinto
em ser sem ti;
consentimento
com sentimento
mas sem sentido.
Sem ti
sou somente só.
Sou só semente,
sem muito.
Só, somente.
19.11.05
Em Cartaz
Não demores muito mais, amor, dentro de mim.
Quando eu voltar quero a sala vazia
As portas fechadas do meu camarim,
E nenhuma lembrança que fale de ti.
Esta noite, anuncies, não haverá espetáculo.
Desço as cortinas, esvazio o palco.
Com um pouco de pó, disfarço minha mágoa,
E faço uma máscara para minha dor.
Tranco a magia no silêncio de um verso,
E em seus bastidores me faço um imenso deserto.
Sobre o tablado da casa tão conhecida,
Sou estrangeira inundada de incertezas,
E roubada de fantasias.
Derramo-me em uma fogueira estéril
Que descolore a chama retinta.
Expando-me de dentro de um abraço solitário
Que brevemente contém as memórias gritantes
As quais me convertem em momento, narração brusca.
Rompo e a esse lugar não pertenço mais!
No desfecho do ato, apanho meu caos
Estancando minhas tempestades.
Desboto a pintura que recobre meu corpo,
E trajo a minha própria nudez.
(Roberta Akemi Saito)
14.11.05
Soneto da Perdida Esperança
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre o meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
porque não? na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
(Carlos Drummond de Andrade)
O que eu mais gosto em poesia é que por mais dramático e paranóico que você seja, sempre consegue a companhia de algum grande poeta. Olha só, o Drummond também acha às vezes que essa maluquice toda da vida deve ser alguém lá em cima tirando uma com nossa cara...
9.11.05
Inventário
amor de amigo,
amor de brinquedo,
amor escondido,
amor em segredo,
amor já vivido,
amor de parente,
amor de verdade,
amor de colega
de qualquer idade
é amor disfarçado
em ser amizade.
Amor no começo,
no meio, no fim.
Amor renascido:
meu amor por mim.
Amor esquecido,
relembrado depois.
Amor engraçado
que é o amor de nós dois.
Amores paternos
(o real e o emprestado)
amor que não tenho:
o de namorado.
Amor companheiro,
amor de irmão,
com cumplicidade
e competição.
Amor ideal -
amor de Platão.
Amores que tive,
amor que terei,
amores possíveis
e o amor que inventei.
Inventário de amores
que já conheci;
uma vida de amores,
o amor que aprendi.
7.11.05
Sobre Viver e Sobreviver
quando a vida brinca comigo.
Se ela me faz de palhaça,
eu a faço de circo.
Eu respondo encarando
quando a vida trapaceia comigo.
Se ela muda as regras do jogo,
eu mudo de jogo e me vingo.
Eu respondo crescendo,
quando a vida me faz de inimigo.
Se estamos as duas em guerra,
transformo ela mesma em abrigo.
4.11.05
Percepção
Passou despercebida;
Eu a notei.
Esperei que te fosses e depois
Num poema
A eternizei.
(Yara Sylvia)
3.11.05
Check Up
Acabei de dar um check-up na situação
O que me levou a reler "Alice
no País das Maravilhas"
Já chupei a "Laranja Mecânica" e lhe digo mais
Plantei a casca na minha cabeça
Acabei de tomar meu Diempax,
Meu Valium 10
E outras pílulas mais
Duas horas da manhã, recebo no peito
Um triptanol 25
E vou dormir quase em paz
E a chuva promete não deixar vestígios...
E a chuva promete não deixar vestígios...
E a chuva promete não deixar vestígios...
E a chuva promete não deixar vestígios...
(Essa vai pra quem pediu "toca Raul", hehehehehe... e também pra quem já passou uma noite sombria, sabendo que um Valium, um Diempax, e outras pílulas ainda não seriam suficientes para se dormir em paz...)
1.11.05
Pero que las hay... las hay!
"Quem olha para fora, sonha; quem olha para dentro, acorda."
C. G. Jung
"Sonhar é acordar-se para dentro."
M. Quintana
26.10.05
20.10.05
18.10.05
Soneto de Êxtase
nuvioso, ela me via
enquanto eu encarava o papel
procurando uma poesia
que pudesse imortalizar
o que, até então, somente ela sabia:
que houvera um brilho em teu olhar,
e momentos de magia;
que houvera música no ar,
e uma luz se acendera no breu
dissipando toda a treva;
e que estivéramos ambas a brilhar:
ela, lua, nua no céu,
eu, tua, nua na terra!
9.10.05
Tímida Intimidade
povoa de medo e desejo
a minha solidão.
Temo essa vida doente,
esse viver de quem mente
a seu próprio coração.
Não quero acordar, de repente,
pacificamente domada;
dos meus sonhos não posso abrir mão.
Mas não quero seguir pela estrada
completamente sozinha; então
talvez te peça para ser paciente,
para ser simples, para ser persistente,
para ser novo, ou se não, diferente
até eu ter a coragem de, contente,
deitar na tua a minha mão.
(Essa é para ser lida ao som de "O Último Romântico", do papa do pop existencial, o poeta Lulu Santos. Ah, esses Lulu Santos...
E para quem não se lembra:
"Faltava abandonar a velha escola,
tomar o mundo feito coca-cola,
fazer da minha vida sempre o meu passeio público,
e ao mesmo tempo fazer dela o meu caminho só, único.
Talvez eu seja o último romântico
nos litorais desse Oceano Atlântico.
Só falta reunir a zona norte, a zona sul,
iluminar a vida já que a morte cai do azul.
Só falta te querer, te ganhar e te perder,
falta eu acordar,
ser gente grande pra poder chorar.
Me dá um beijo e então
aperta a minha mão.
Tolice é viver a vida assim,
sem aventura.
Deixa ser pelo coração
Se é loucura, então melhor não ter razão" )
6.10.05
Maré Alta
e te temer...
te querer...
e te temer...
Quebram nas praias do peito
as ondas da emoção.
Eu assisto 'a beira-mar
a subida da arrebentação.
Te querer...
e te temer...
te querer, te querer...
e te temer...
Subitamente me dou conta
de não estar com os pés no chão
mas sim em mar aberto
numa pequena embarcação
te querer, te querer...
e te temer...
te querer, te querer, te querer...
2.10.05
Por ter acordado ainda muito mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre -
Vou onde o vento me leva e não me deixo pensar."
(Mais uma do Alberto Caieiro. Essa vai carinhosamente de presente pro Marcelo, pra coroar aquela nossa conversa sobre estar disponível para as coisas que a vida nos oferece... Aprendendo a ser pétala flutuando ao vento, folha sendo levada rio abaixo!)
1.10.05
Que vem a chiar, manhaninha cedo, pela estrada,
E que para de onde vem volta depois,
Quase à noitinha, pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas...
A minha velhice não tinha rugas nem cabelos brancos...
Quando eu já não servia, tiravam-me as rodas
E eu ficava virado e partido no fundo de um barranco.
Ou então faziam de mim qualquer coisa diferente
E eu não sabia nada do que de mim faziam...
Mas eu não sou um carro, sou diferente,
Mas em que sou realmente diferente nunca me diriam."
(Alberto Caieiro)
27.9.05
fica difícil reconhecer a coisa certa
a se fazer. São possibilidades inúmeras:
uma multidão de portas abertas.
Construímos planos e estratégias - castelos
baseados na forma dura, na linha reta.
Acreditamos que a razão
Vai nos mostrar a saída correta.
Mas a vida, para além de qualquer plano
e à revelia de nossas metas
Se constrói por si mesma
E no final, sem saber, a gente acerta.
(Dedico este poema à Raquelzinha, minha coabitante, que nesse momento é alguém tentando fazer a coisa certa)
24.9.05
My Babe Plays the Blues
Right now I haven't got any clues
I don't know if he ever thinks of me
All I know is he plays the blues
I don't know what my babe likes
Is he as interesting as he looks?
I don't know if he'll ever call me
All I know is he plays the blues
I don't know if my babe is sweet
If he's as caring as he should?
I don't know if my babe is hot
All I know is he plays the blues...
(Essa é para ler ouvindo blues. De preferência, um bem animado e alto astral!)
20.9.05
Passo à Frente
mas deixei finalmente para trás
tudo aquilo por que passei.
Passo a passo: é como eu vivo.
Estando mais leve, abro os braços:
em breve ensaio meu vôo de pássaro.
15.9.05
Falando-te de igual para igual, protesto
contra a ignóbil atitude que tiveste
(atitude esta fraca e previsível, igualmente)
de decidir ignorar-me
pois, ao fazê-lo, acendeste
a ígnea ira que, em meu peito ardente,
transforma-me em ignara fera ignívoma.
Desejaria antes a ignorância de tal ignomínia
a esta pira de ódio a me incender a alma!
(esta é só para quem tem dicionário! hehehehehe...)
10.9.05
Luto para Enterrar esse Luto
Façamos silêncio
Em respeito à alma que vela o seu finado amor.
Amigos,
Postemos somente a página branca
Em memória ao vazio onde antes era cor.
Amigos,
Ouçamos à distância
O uivo dos ventos gelados de inverno, o uivo de dor.
Celebremos a hora morta.
Ah,
se pelo menos o defunto também ficasse quieto!
4.9.05
À Esquerda
O meu olho esquerdo é míope;
três vezes mais míope que o direito.
E enxergar com clareza sentimentos
é três vezes mais difícil que pensamentos.
Frequentemente meu pé esquerdo inflama:
os ligamentos reagem ao impacto com o chão.
E minhas emoções às vezes também se ferem
no impacto do contato duro com a realidade.
Meu seio é volumoso;
é difícil ouvir meu coração.
E meu impulso de nutrir os outros é tão grande
que mal ouço minhas próprias necessidades.
28.8.05
Ambivalente
que me violenta com delicadeza,
que me dilacera a carne com doçura,
que me estrangula a alma com palavras doces,
que me abandona permanecendo presente,
que me despreza atenciosamente,
que me aperta a garganta com mão suave,
que me sangra o ventre e me ampara,
que me esmaga cuidadosamente,
que me esquece oferecendo o ombro amigo,
que me aniquila com dedicação,
vá com cuidado pro inferno,
que eu te odeio com todo o meu carinho.
26.8.05
Não quero ver,
nem saber o que me toca.
Não quero pensar nos olhos, nem na boca,
nem naquilo que me falta.
Se me salva, ou se me mata,
Não quero saber. Eu tento
esquecer a dor e o desalento.
Não quero falar do que se passa.
Eu só quero que caia sobre o mundo
um silêncio de crepúsculo, de sepulcro,
uma escuridão de nunca e fundo,
um vazio.
Antes era tudo.
Agora é nada, negro, mudo.
25.8.05
Autopsicografia
O poeta é fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.
23.8.05
Você me afogava,
eu te sobrevivia.
19.8.05
Eu acho que vi um gatinho...
Tenho um certo pânico de cachorros, mas adoro gatos. Sempre quis ter um, bem manhoso, pra me fazer companhia, cafuné e carinho. Imaginava o meu gatinho um daqueles alaranjados, com o olho verde, e ia botar nele o nome de Michel, que parece nome de gato, parece "Miau"... Mas uns problemas "operacionais" me impedem de ter um gato aqui no apartamento (é o gato, ou a Quel, e sabe, né... ela dá menos despesa! hehehehehe). Mas agora dei um jeito de ter o meu gatinho: espiem lá embaixo no blog! O Michel vai ficar sempre aqui, vai receber todo mundo quando eu não estiver, e ele é muito brincalhão! Adora perseguir o cursor do mouse ou quando a gente brinca com ele com aquelas traquitanas que aparecem naquela janelinha do lado da cesta dele!
18.8.05
15.8.05
Poética do Abandono
Nasci para sentir falta.
Eu sou um andarilho que caminha quase sempre só
levando um cajado e uma bolsa cheia de lembranças
dos amigos em outros continentes,
dos amores mal terminados,
e de todas as vezes que entreguei o coração a alguém que se foi.
A minha vida é sentir falta,
e a minha poesia é metafísica,
porque é conversar com quem já não mais está.
Eu caminho só
e só a ausência é quem me faz companhia.
14.8.05
Pra Comemorar o Dia dos Pais
8.8.05
Mar Interior
No universo simbólico dos mitos e arquétipos o mar é um símbolo muito forte de tudo o que é feminino, fluido, emocional, abrigo e abismo. O oceano é uma metáfora forte do nosso inconsciente, o vasto lugar que guarda nossas emoções mais acolhedoras e também os monstros mais assustadores. Para a psicologia analítica, trazemos dentro de nós um mar a ser navegado e desvendado. Esta é, talvez, a fonte da longevidade do verso "navegar é preciso".
Assim sendo, não pude deixar de me espantar esta tarde em plena aula de fisiologia. O professor falava sobre homeostase, que é o equilíbrio constante (e fundamental para a existência da vida!) que existe nos fluídos do nosso corpo e em todas as nossas células. Ele explicava que a vida surgiu no oceano pois a sua água oferecia justamente as tão necessárias condições estáveis de temperatura , concentração, salinidade, etc. Com o tempo e a evolução, os organismos desenvolveram a capacidade de manter por si a homeostase, o que permitiu que a vida conquistasse novos ambientes. E, dizia ele, a verdade é que os fluídos corpóreos dos seres vivos, os líquidos existentes dentro e fora de nossas células, encontram o seu equilíbrio em condições de concentração e salinidade que são em tudo similares àquelas encontradas na água do mar!
Em poucas palavras: os seres vivos puderam sair do oceano, este útero primitivo que nos acolheu e nos formou, porque eles aprenderam a trazer o oceano dentro de si.
Navegantes, naveguemos...
7.8.05
Quadrinhas e Saudades
de você e de tudo o que fazíamos juntos,
das horas perdidas com qualquer assunto
regadas a cerveja, mate e vinho tinto.
Estar na praia e ver nascer o dia,
ou ver você gastar toda a sua didática
pra me dar uma dica importante de informática.
Você era a minha melhor companhia.
E no entanto, agora tudo está mudado.
A vida nos fez uma dupla partida.
Eu estudante, você formado,
morando naquela cidade poluída.
Na minha memória você vai ficar
sempre como uma lembrança querida.
Espero que a gente saiba encaixar
uma velha amizade numa nova vida.
(Taí. Um poeminha engraçadinho e despretensioso, só pra reestabelecer o fluxo sanguíneo na minha veia poética!)
5.8.05
4.8.05
Que se danem os nós
"Vim gastando meus sapatos
Me livrando de alguns pesos
Perdoando meus enganos
Desfazendo minhas malas
Talvez assim chegar mais perto
Vim achei que eu me acompanhava
E ficava confiante
Outra hora era o nada
A vida presa num barbante
E eu quem dava o nó
Eu lembrava de nós dois
mas já cansava de esperar
E tão só eu me sentia e seguia a procurar
Esse algo alguma coisa alguém
que fosse me acompanhar
Se há alguém no ar
Responda se eu chamar
Alguém gritou meu nome
Ou eu quis escutar?
Vem eu sei que tá tão perto
E por que não me responde
Se também tuas esperas
te levaram pra bem longe
É longe esse lugar
Vem nunca é tarde ou distante
Pra te contar os meus segredos
A vida solta num instante
Tenho coragem tenho medo sim
Que se danem os nós"
Mais uma música da Ana Carolina que me faz pensar em muita coisa que anda acontecendo comigo. Perdas e ganhos, pessoas que ficam e pessoas que se vão, e descobertas sobre quem eu sou e o que eu quero... Bem, na verdade, por enquanto, muito mais perguntas do que descobertas, mas um dia eu chego lá.
1.8.05
hehehehehehe
Enquanto a "inspiração" não vem, e até para ajudá-la a achar o caminho de volta pra casa (essa filha pródiga...), lá vão algumas citações que encontrei sobre o difícil assunto do amor que tanto se busca e tão raramente se encontra:
"Sabe o que é melhor do que ser bandalho ou galinha? Amar.
O amor é a verdadeira sacanagem."
Tom Jobim
"A vida é a arte do encontro, apesar de haver tanto desencontro pela vida."
Vinícius de Moraes
"And love is either
In your heart or on its way"
Frank Sinatra
27.7.05
Brasão dos Maziero

"O brasão possui no seu escudo um ramo de café, que representa a principal atividade de radicação da família no Brasil; nesse ramo, os quatro grãos de café simbolizam as quatro famílias originadas pelos filhos de Luigi e Pierina. A cor de fundo do escudo é marrom avermelhado e simboliza a terra onde prosperaram as sementes de café e de onde se obteve, por muitos anos, o sustento da família.
A inscrição LP se refere às iniciais de Luigi e Pierina, o casal que deu origem ao clã. O nome da família está escrito abaixo do escudo, em cor branca, simbolizando a paz. Os laços existentes atrás do escudo representam o vínculo entre os familiares, e as cores verde, vermelho e branco remetem às três cores da bandeira italiana, país de origem da família."
Trecho de "Os Maziero", livro de Wilson G. Maziero que conta a história da família.
O brasão acima também foi desenhado por mim. Os Maziero realizaram um concurso interno à família para projetar um brasão para a família e dentre 14 propostas, a minha foi a escolhida. Acho que ele se parece com o que eu escrevo também porque os elementos tendem a ter mais do que um único significado, gosto de idéias que se superpõe, de simbologias... então, aí está, uma poesia minha sobre minha família em forma de brasão. :)
19.7.05
Solidão em Sol Menor
“quem me dera ter o som”
Mote de Marcelo Gilge
Quem me dera ter o tom
Pra compor uma canção
Afinada em sol menor
Pra espantar a solidão
Um blues pra se cantar de cor
Quem me dera ter o dom
De escrever uma canção
Que alivie toda a dor
A tristeza, a frustração
Do poeta e do cantor
Quem me dera ter o som
Pra tocar uma canção
Que trouxesse a luz do sol
A esse mundo escuro e vão
Por onde andamos sempre sós...
17.7.05
16.7.05
You Can't Always Get What You Want...
you can't always get what you want,
you can't always get what you want..."
Puta que o pariu... na próxima encarnação, eu quero nascer baixista duma banda de blues!
13.7.05
Sentidos
há muito não faço mais.
Extinta a lógica,
eu sigo o instinto.
Me desfiz de tudo o que eu havia pensado:
me despi do meu orgulho,
das aparências,
do bom-senso.
Eu me desnudei em camadas
até que restou somente
entre eu e você
a imensidão das coisas que eu tinha a dizer
sobre tudo o que aconteceu.
Até que restou somente
entre nós
o que eu havia
sentido.
(Ao que Mário Quintana responderia: "Que fique muito mal explicado: / Não faço força pra ser entendido. / Quem faz sentido é soldado.")
12.7.05
Férias na Fazenda...

madrugada na fazenda
alvorecer da modernidade
meses antes concebida
com muita tecnologia
uma pesquisa engenhosa
uma vaca e sua cria
ao cabo de x luas
uma feliz coincidência
a bezerrinha eram duas
com a clonada aparência
e a minh'alma, menina do interior
tomada de espanto e torpor
Ao perceber o acaso
Quase entrou em espasmo
Era esperada uma
Apenas havia um arreio
E eu, com algum receio
Segurei a segunda nos braços...
(poesia escrita a 6 mãos - eu, Gabi e Lucas - sobre a surpresa do nascimento de bezerrinhas gêmeas num experimento conduzido pelo laboratório do meu irmão. Essas belezinhas aí são fruto de um embrião com mitocôndrias de bovino e de búfalo!)
9.7.05
“Um monstro de delicadeza”
Falarei baixo
Para não perturbar a tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluído que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado do que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.
7.7.05
Soneto de Quarta-Feira de Cinzas
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Comprei ontem uma antologia poética do Vinícius de Moraes, em comemoração ao meu primeiro dia de férias. Que doce surpresa encontrei enquanto “namorava” o livro! Trazia algumas poesias do livro “A Arca de Noé”. Num instante fui transportada de novo para a minha infância. De repente me lembrei de que quando era pequena eu tinha um (ia falar CD, mas naquela época...) tinha um LP da Arca de Noé que eu escutei praticamente até furar (e quem me conhece nem duvida de que eu sou capaz! hehe) Descobri de repente que ainda me lembro perfeitamente das melodias, e das letras, que delícia! “Lá vai São Francisco / pelo caminho / de pés descalços / tão pobrezinho (...) dizendo ao vento / bom dia amigo / dizendo ao fogo / saúde irmão”. E me dei conta de que o Vinícius me acompanha (ou seria eu quem o acompanha?) desde pequenina... e ai, quanto Vinícius eu li na adolescência, quantos sonetos... e hoje em dia ainda a poesia dele fala comigo, vai no fundo do peito e da alma... tem uma, linda, linda, que fala da sombra, dessas coisas que a gente tem dentro e até se assusta (próximo post, prometo)... e tem essa que eu postei hoje que me faz pensar em gente querida...
5.7.05
To Hope To Wait
que a tua solidão seja grande como a minha.
Assim você saberá o que me falta agora
e o que sempre me faltará.
Eu espero
que a tua solidão seja musical como a minha.
Assim você saberá ouvir
o meu canto e o meu silêncio.
Eu espero
Que a tua solidão seja poética como a minha.
Assim você poderá entender
a tristeza e a beleza nos acontecimentos da nossa vida.
Eu espero
que a tua solidão seja noturna como a minha.
Assim você conhecerá meus abismos
e a minha escuridão.
Eu espero
que a tua solidão seja violenta como a minha.
Assim entenderás a raiva
e as feridas.
Eu espero ainda
que a tua solidão seja paciente como a minha,
para que saibas esperar por mim,
assim como
Eu espero
por ti.
3.7.05
A Física descobre Deus?
"Atualmente, vem crescendo o consenso, muito lentamente, de que a Física Quântica não está completa, a menos que concordemos que nenhum fenômeno é um fenômeno a menos que seja registrado por um observador, na consciência de um observador. E isso se tornou a base da nova ciência. É a ciência que, aos poucos, mas com certeza, vem integrando os conceitos científicos e espirituais.
Não há dúvida que a Matemática Quântica é muito capaz, muito competente, e ela prevê o desenvolvimento de ondas de possibilidades, a matéria é retratada como ondas de possibilidades. O modo como elas se espalham é totalmente previsto pela Física Quântica. Mas agora temos probabilidades de possibilidades. Nenhum evento real é previsto pela Física Quântica. Para conectar a Física Quântica a observações reais: não vemos possibilidades e probabilidades, na verdade vemos realidades. Esse é o problema das medições quânticas. E luta-se com esse problema há décadas, como eu já disse, mas nenhuma solução materialista, uma solução mantida dentro da primazia da matéria foi bem sucedida. Por outro lado, se considerarmos que é a consciência que escolhe entre as possibilidades, teremos uma resposta, mas a resposta não é matemática. Teremos de sair da matemática. Não existe Matemática Quântica para este evento de mudança de possibilidades em eventos reais, que os físicos chamam de ‘colapso da onda de possibilidade em realidade’. É essa descontinuidade do colapso que nos obriga a buscar uma resposta fora da Física. O que é interessante é que se postularmos que a consciência, o observador, causa o colapso da onda de possibilidades, escolhendo a realidade que está ocorrendo, podemos fazer a pergunta: qual é a natureza da consciência? E encontraremos uma resposta surpreendente. Essa consciência que escolhe e causa o colapso da onda de possibilidades não é a consciência individual do observador. Em vez disso, é uma consciência cósmica. O observador não causa o colapso em um estado de consciência normal, mas em um estado de consciência anormal, no qual ele é parte da consciência cósmica. Isso é muito interessante. O que é a consciência cósmica diante do conceito de Deus, do qual os místicos e teólogos falam?"
28.6.05
Aos leitores desse blog
Aprendi com a Cecília Meireles, que aprendeu com a primavera, a me deixar cortar.
E a me deixar voltar sempre inteira...
27.6.05
Sobre um Fim que não tem Fim
(para alguém que se foi
e levou consigo esse imenso pedaço de mim)
O teu olhar é parte
da minha visão
não é justo que me deixes
na escuridão
O teu corpo é parte do meu
teu terror, tua risada,
não é justo que me deixes
sem braços, sem pernas, sem nada...
Os teus sentimentos
são a carne do meu coração
não é justo que me faças
fria razão
Tuas palavras são pedaços
de tudo aquilo a que pertenço
não é justo que me faças
silêncio...
23.6.05
Vida de Astronauta
Cada época tem a sua magia;
eu achava que ser astronauta
era vivenciar a magia do nosso tempo.
Sim, a tecnologia tem lá a sua mágica, mas
o que eu queria era poder flutuar
e pensar que estava voando;
poder explorar outros planetas, novos mundos.
Me distanciar,
olhar a Terra de longe e,
quem sabe?
desta perspectiva diferente
compreender aquilo cujo entendimento nos é negado,
a nós que temos os pés no chão.
Quando cresci, mudei de planos.
Abandonei os projetos espaciais, acalentei outros sonhos...
Mas mantive os olhos atentos à magia
de ser leve, de aprender,
de adentrar o desconhecido
e de tirar os pés da terra.
Não sou astrounauta, mas arquiteta
de paisagens interiores.
Psicóloga exploradora de mundos,
e poeta!
Os Dois Relógios
"Um homem com um relógio pode dizer as horas; um homem com dois já não tem certeza"
(Gabriela Mezzacappa)
O que discutíamos na aula era o dever moral e ético do psicólogo de ajudar o paciente a recuperar a sua capacidade de trabalhar, e de amar, sem julgar as suas opções de vida. O dever que temos de conseguir atender alguém cujas convicções se choquem com as nossas; mesmo que ele/a seja bandido, drogado, prostituído, de outra religião, ou ateu, homossexual, prepotente, ou só chato, e de conseguir ajudar esta pessoa a ser feliz com as suas próprias convicções. Parece tão difícil a princípio. Parece que seremos obrigados a abrir mão de tudo o que é certo e nos curvar às maluquices e incongruências deste mundo.
Mas me ocorreu que fica bem mais fácil se a gente lembrar que esses conceitos do que é certo ou errado são convenções tão arbitrárias quanto o fato de que agora são 4:04, como poderia ser 5:13 ou 1:55, ou outro número qualquer. E que da mesma forma que nada garante que um relógio possa estar mais certo que o outro, nada comprova que uma maneira de viver seja mais certa que outra.
Manifesto-me aqui então em prol dessa idéia: andemos todos sempre com dois relógios. É para sempre lembrar do quanto certas verdades podem ser relativas...

19.6.05
Aprendendo a voar?
ela abre os braços em cruz.
Acima, a imensidão do céu infinito,
metáfora de todo o sucesso possível.
Abaixo, a escuridão profunda do abismo,
O pavor e o medo cabível.
Ela fecha os olhos,
respira,
e se atira.
16.6.05
Balanço de Aniversário
O que se perde
quando se envelhece?
Será que se aprende a ser mais amigo?
O que fica? O que muda?
Crescer é presente ou castigo?
Será que se amadurece?
Será mais importante o que se aprende,
ou o que se esquece?
Sem as pistas, vou tateando.
Há um mistério; investigo.
Talvez não encontre as respostas,
mas posso acabar encontrando comigo!
12.6.05
Sincronicidades: Qual calmaria?
"Jung criou o termo sincronicidade para designar “a coincidência no tempo de dois ou mais acontecimentos não relacionados causalmente, mas tendo significação idêntica ou similar, em contraste com sincronismo, que simplesmente indica a ocorrência simultânea de dois acontecimentos”. A sincronicidade, portanto, caracteriza-se pela ocorrência de coincidências significativas. (Nise da Silveira – Jung: Vida e Obra)"
Estou voltando de um período de “calmaria compulsória”, no qual fui jogada à força por uma gripe que me deixou absolutamente prostrada por quase 24 horas ininterruptas. Sem levantar da cama nem pra comer... Logo eu, que estava aprendendo a contemplar a calmaria, descobri que só observar não adianta. Se alguém aqui dentro resolve que você vai aprender a viver a calmaria com tranqüilidade, ao invés de com aquela mistura de tédio e ansiedade, bem... você vai aprender a viver, meu amigo, não é só ficar olhando não... Mas de qualquer forma, olha só o que eu achei na minha volta:
Calmaria de Tatiana: o post que vocês podem ler logo aqui abaixo.
Calmaria de Gabriela: outro post sobre a calmaria de uma poetisa que eu adoro
(com uma coincidência paralela: a menina sobre a lua, Karina)
Calmaria de Simone: uma leitora nova que deixou um comentário num post aqui embaixo, e que, para a minha surpresa, tem um blog chamado “Qualquer Calmaria”
10.6.05
Calmaria

Calmaria...
Tarde quente, sem vento
Nenhuma folha se move.
Ar parado.
Rotina, longamente conhecida.
Coração vazio.
Velha cidade,
O mesmo céu,
As mesmas casas...
No fim do dia, não tenho pressa
Contemplando o céu límpido e sem nuvens.
Quantos azuis diferentes podem haver
Num céu de uma só cor?
Adoro esta paz.
Adoro estes raros,
Preciosos momentos
De vida em suspensão,
Em que tudo é silencioso:
A natureza está quieta,
A cidade está quieta,
O coração está quieto,
E até a poesia,
Esta criança,
Se aquieta...
Mas silenciosamente
(impertinente!)
aquela primeira estrelinha
atinge a minha seda azul!
E me traz de volta aos ouvidos
A voz do velho sábio:
“A calmaria é senão o prenúncio do tumulto!”
Em pouco tempo, mil estrelas surgem!
Cai a noite, surge a brisa,
Acendem se os postes e os faróis!
De noite, a cidade acorda,
A roda viva da vida se põe de novo a rodar,
E tudo muda muda muda muda muda!
Shh... Espera um minuto...
(...)
Ouve comigo este silêncio...
5.6.05
A Sombra e o Homem

Não se separam luz e sombra;
São a mesma coisa pelo avesso.
A luz do dia mais claro
Desenha as sombras mais nítidas:
quanto mais luz mais sombra...
Na noite mais escura
Brilham mais as estrelas:
quanto mais sombra mais luz!
(E esta daqui é a versão do Fernando Pessoa / Alberto Caieiro:)
"Por isso essas canções que me renegam
não são capazes de me renegar
e são a paisagem da minha alma de noite
a mesma ao contrário..."
4.6.05
Negra Noite
Estava no princípio de uma estrada
estreita, escura, esburacada,
numa negra noite sem lua.
O caminho sinuoso mergulhava
numa escuridão densa e silenciosa.
Relutei.
O negrume da noite preenchia todos os vazios,
me isolava de todas as coisas.
Só havia eu,
a escuridão
e a estrada.
Tudo o que eu podia ver
era a distância até o próximo passo,
e mais nada.
Foi tremendo de medo
que decidi seguir
e deixei
que aquela noite profunda me engolisse.
Neste preciso momento,
olhei para o alto
e vi:
na mais negra das noites,
milhões de estrelas cintilavam!




