7.7.05

Soneto de Quarta-Feira de Cinzas

(Vinícius de Moraes)

Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada

Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada

Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura

Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.



Comprei ontem uma antologia poética do Vinícius de Moraes, em comemoração ao meu primeiro dia de férias. Que doce surpresa encontrei enquanto “namorava” o livro! Trazia algumas poesias do livro “A Arca de Noé”. Num instante fui transportada de novo para a minha infância. De repente me lembrei de que quando era pequena eu tinha um (ia falar CD, mas naquela época...) tinha um LP da Arca de Noé que eu escutei praticamente até furar (e quem me conhece nem duvida de que eu sou capaz! hehe) Descobri de repente que ainda me lembro perfeitamente das melodias, e das letras, que delícia! “Lá vai São Francisco / pelo caminho / de pés descalços / tão pobrezinho (...) dizendo ao vento / bom dia amigo / dizendo ao fogo / saúde irmão”. E me dei conta de que o Vinícius me acompanha (ou seria eu quem o acompanha?) desde pequenina... e ai, quanto Vinícius eu li na adolescência, quantos sonetos... e hoje em dia ainda a poesia dele fala comigo, vai no fundo do peito e da alma... tem uma, linda, linda, que fala da sombra, dessas coisas que a gente tem dentro e até se assusta (próximo post, prometo)... e tem essa que eu postei hoje que me faz pensar em gente querida...

9 comments:

Ká said...

Realmente as obras de Vinícius são ótimas e tocam fundo nossa alma...são como seus poemas tati....as vezes me tocam tão profundo que fico sem fala. Obrigada por todas as cenas passadas em sua companhia. beijos

Gabi said...

Vinícius, Fernando, Cecília... São tantos nomes, tantas obras... Nada melhor que a poesia para botar os sentimentos pra fora e para dentro de nós...
Tati, adoro-te!
Sou sua fã!
Beijo!

Lucas said...

É de uma delicadeza e tão lindo que cala até a alma mais chorosa.
Sem mais. Ou cem mais.

rogerbile said...

Lindo poema! Teu bom gosto pra escolher o que postar é grande demais. Alimento pra noite inteira...
Beijo

rogerbile said...

Pô, me atrapalhei aí... Onde está escrito "peristálticas" leia-se "rogerbile"... e tenho dito!

D. Afonso XX, o Chato said...

Sabias que fostes citada pelo Vinícius?

SONETO À LUA

Por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?

Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?

Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Tereza:

E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequinina lua!

bjs

TatiGirl said...

:D
Afonso, que doçura o seu comentário, mas eu sabia sim! Tem inclusive uma outra poesia em que ele também usa o nome "Tatiana" que é a minha favorita. Chama-se "Balada do Morto Vivo" e é uma história de arrepiar!
Pra quem quiser converir:
http://spock.acomp.usf.edu/~campoe/mpb/Vinicius_de_Moraes/balada_do_morto_vivo.html

rogerbile said...

Tati, acabei de ler a "Balada do Morto Vivo". Vc me paga se eu não dormir de noite!!!!!!!!!!

Lucas said...

Essa Balada do Morto Vivo é de arrepiar mesmo, além de que dá até pra ver a noite escura, a fogueira e o cidadão contando essa estória macabra!
Essa balada é uma daquelas nas quais eu nunca iria!

Pegou? Balada, ir na balada, hã?

Beijo.